quinta-feira, novembro 18, 2010

Novembro

Novembro cor de fumaça, chuva, medo, casas pálidas
Meus olhos fundos, uma pergunta, frio, casas pálidas
Rejeição, dúvidas, desamor, casas pálidas.
Mãos ávidas por calor, meus olhos cálidos.
Não me mate, ânsia
Dê-me afago, ânsia
Acalenta-me, sucumbo-lhe.
Eles se entregam cálidos nas avenidas
Entrego-me a mim, pálida.
Levo-me ao meu interior,
Queimo... Flâmula, fogo, afã.
Não me chamam,
Não há chama,
Palidez.

quarta-feira, outubro 13, 2010

VOCÊ

Você que ama, você que sente o arrepio da existência
Compreende melhor o segredo que não é revelado,
Você que chora no calor do sol, e vibra nas loucuras da vida
Você que é um espectro, que tem alma de anjo,
Que olha o infinito da alcova, senta no divã e escreve poemas.
Você, breve infeliz, que veio ao mundo para servir de resistência, de telescópio, que observa e estuda.
Você que é arbusto no vento indomável, que joga cartas para alguém, lê o futuro, decodifica, ou quer ser entendido pelos deuses.
Você que é aquele, nunca este. Que está longe de lamentar e mendigar vaidade, homem fugitivo, mulher.
Você que reencarnou em uma coruja, que tudo vê, e anuncia. Que é peregrino em seu lar, que faz acordes para a sinfonia apocalíptica. Que sofre, sem temer, geme sem desesperar. Que se incomoda. Que não dá risada banal.
Você que não escreve por parágrafos, não obedece as regras gramaticais
Você é uma criança.
Você que segura o pecado, mas não sabe. Que guarda a chave da inocência, que se chama sem nome, que não sonha ambições, que ouve os gritos de si próprio.
Provavelmente, você tem um livro.
Você que não zomba da felicidade, e não tem definição pro ódio, que se encanta pelo olhar qualquer em um quadro de pinturas, que tem um santo, e que não tem.
Que se chama José, ou que encontrou o seu destino.
Você que não se importa com a tristeza
Mas, que a carrega, sobretudo,
Para não perder a razão.
Você que nasceu sem razão, sem amuleto, que não carrega conceitos,
E mata, e pratica a antropofagia, sem nexo, sem sexo,
Em total estado primitivo.
Você, que diverge,
Extasia-me.

quarta-feira, agosto 04, 2010

Soneto do Acaso

O acaso, vento sem direção, me levou
Entre labirintos a um jogo de mistério
Em prosas e olhares certeiros, tornou
Breve doçura de paixão, em caso sério.

Não pude acreditar em toda imensidão
Loucura efêmera de sonho, talvez tolice
Se meu olhar dissesse sequer um não
Mentira seria... Olhos de Alice!

Embora a exclamação traga em si o inédito
Sinto que aqueles primeiros olhos não foram primeiros
Em vida ou devaneio, aqueles já me foram velhos

Guarde em ti, única promessa, dentro de toda maldade
A nossa aliança, mesmo que como poeira no deserto
Voe aos horizontes, no final, a nossa fidelidade.

sábado, julho 31, 2010

Ave


Vendo a valsa das aves soturnas
Num céu vazio de angústias noturnas
Um violino que dá conselhos
Um piano jubiloso em prosa de leigos

Declamo Baudelaire para o poste da rua
Ouço o canto esquecido da Cheia Lua
Recolho meus versos, minha filosofia,
De um mundo que vive em falsa alegria

Damas da noite, cigarros, entorpecentes,
No vazio do amor, olhos carentes.
Livros na estante, egoísmo na língua,
Neurônios ilusórios morrem à míngua.

Eu, ave soturna acompanhante da noite,
Que procura nos becos o segredo da sorte,
Encontro nos breves anseios altivos humanos
O mistério trivial de um mundo insano.

quarta-feira, junho 30, 2010

Déjà Vu



Faltava algo para dizer. Meus olhos já não diziam... Minhas mãos já não suavam com a tensão dos dias, minha tez já não empalidecia com aquelas antigas promessas feitas, com as futuras desilusões, muito menos com o escuro do meu quarto. Solidão, algo longínquo. O que dizer? Dentro do universo de todos os versos rimados, palavras supérfluas, frases dadaístas... O que dizer? Já deveria ter dito tudo, ou nada, e nada que fizesse sentido na vida. Na nossa vida. É para você que eu digo o que eu ainda não disse, e o que não disse? Não sei, não posso talvez, dizer. Não explodiu o foguete do desejo de dizer tudo o que sei sobre tudo o que não era possível saber sobre você... Não tenho medo de fitar seus olhos, caídos olhos. Não temo o seu sorriso irônico, tenho ousadia de pensar que tudo que vivi na minha digna pré-adolescência poderia, quem sabe, ser algo ilusório, um paraíso pueril, poeira de sonhos que cobrem o mar da minha audácia que vinha do estômago, do útero, da bexiga, dos meus órgãos internos, para extenuar uma rebeldia sua que repercutia dentro de mim. Aquela sede de romper com as verdades, tudo era diferente, um gosto de perigo abaixo da língua, a insalivação da alma para correr nos campos livres, soltos, e sem regras. Eu precisava de um impulso, de uma mão atirada para o horizonte, e muito mais do seu amor, de suas decisões, das suas atitudes. Precisava me masculinizar me sentir toda e tudo e me satisfazer... E toda aquela liberdade me continha para a casca do ovo, o casco da tartaruga, e me cobria como algo intocável... Ideologias? Muitas, mas as suas, apenas. E me via em você. E já não precisava me masculinizar e me sentir inteira como eu deveria ser. E quando me olhava, via em mim o mesmo, como se nós fôssemos Narciso e seu espelho. Dois lados da mesma moeda, duas faces do mesmo plano, um soneto com uma bela chave final. Quem era você? Um anjo embriagado indicando um caminho, com risos estranhos, modos esquisitos de se comportar. Uma luz que ardia no fundo daqueles olhos negros, ascendia uma chama, uma cobiça pelo inalcançável. Um homem com instintos infantis, que cresceu com o mundo corrupto, uma história além dos anos, da década que havia vivido, dos dias incomuns que passara ao meu lado. E quando me tocava as mãos, eu sentia, sentia muito mais do que pudesse imaginar na infância, de talvez encontrar um príncipe, mas não, não era isso, era mais que isso, uma magia perfeita, nada comparável às literaturas triviais que me conquistaram na minha passagem de fases. Romance, loucura, algo para se relatar em livros, vidas que já viveram antes, ou tudo não passava de mera quimera de uma mente alucinógena, aliciana. A dúvida de que isso existiu ainda permeia nas minhas frustradas imaginações, aquela doce voz, a altivez das discussões banais, um paradoxo, um amor indescritível, algo não desta vida, não deste mundo, nada igual. As letras não podem expressar, a boca não pode soar, as ondas do som não podem emitir freqüência... Um desmaio, e a volta ao cotidiano.